Sou uma cidadã activa. Atenta. Não escrevo mais vezes sobre política e politiquices, sobre as medidas da abençoada e sagrada austeridade que todos os dias sinto no meu bolso e no bolso dos meus porque me enervo. Enervo-me de tal maneira que o meu pescoço chega a imobilizar-se. Prefiro falar sozinha em casa enquanto oiço a rádio, agora que deixei de ter televisão. Ainda ontem quando ouvi o PC a dizer para deixarmos de ser piegas e trabalharmos mais, quando o ouvi dizer que não ia haver aulas - e eu a pensar, ora não há aulas mas os pais têm de trabalhar, os putos ficam onde? - mandei-o logo para o caralho. Estou em casa, sozinha, posso dizer o que eu quiser. E que me bem que me sabe mandá-lo a ele a à corja dele secretamente para o caralho. Liberta-me pronto. Outras vezes reservo a minha opinião para quando falo com alguém com que possa gritar. Geralmente é isto.
Tenho algumas leituras quase religiosas. O RAP na Visão, as crónicas do Lobo Antunes quando me sinto capaz de as ler sem chorar ao mesmo tempo, o Versaletes, a Clara Ferreira Alves na Revista do Expresso e às vezes o Miguel Sousa Tavares. Que no outro dia escreveu isto no Expresso.
Não sei se leram... mas devia ser de leitura obrigatória nos cursos de gestão. Isso e cá para mim devia ser impresso em tamanho A0 e afixado em tudo o que é parede dessas empresas com patrões de vão de escada. Aquelas por onde eu já passei. Dizem-se líderes, gestores e empreendedores mas no fundo lideram apenas a vida das suas empregadas domésticas, e às vezes nem isso. Gerem as suas contas poupança para poderem ir com a família para um resort, longe de tudo, sem co-habitar com os locais, sem falar com ninguém que é para não ver misérias. Empreendem apenas famílias porque são dos poucos que podem ter mais do que um filho. E é isso que me assusta. A prol de patrõezinhos que Portugal está a ver nascer.
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