Não tem ainda a idade que ele (Saramago) tinha quando a conheceu. Saramago tinha 63, Pilar 36. Existe uma grande diferença de idade entre os dois. Não sentiu isso nunca como uma dificuldade?
Não. A idade está no bilhete de identidade, em nenhum outro sítio. Ele tinha todas as idades, tal como eu tenho todas as idades. Num momento determinado podemos ser crianças e noutro momento dois adultos cansados.
(…)
Ainda Caim: “Faltam-nos ainda muitas palavras para que comecemos a tentar dizer quem somos, e nem sempre daremos com as que melhor o expliquem.” Foi uma bênção terem encontrado as palavras que dissessem quem são?
Encontrar as palavras, vamos encontrando todos os dias. A sorte é sermos os dois tão transgressores, tão rebeldes, e termos tanta força vital que não nos cansamos nunca de começar. E se no dia anterior houve um a história disparatada, ou chunga, ou feia, no dia seguinte começa-se de novo. Não há em filhos, nem pátria, nem rei, nem partido que nos obrigue a estar juntos. Alcançámos, em todos estes anos, 20 e tal, um nível de liberdade que nos permite dizer todas estas coisas, enfrentar o que seja e estar juntos porque queremos começar juntos. Isso é que é ser livre, para ficar e para ir. Não há uma única convenção social que nos ate. Não temos uma “puta atadura” pequeno-burguesa. Quem tem uma mente pequena não entende a nossa história, banaliza-a.
(…)
Como é que tem assistido à polémica que envolve Caim?
Estes colunistas de merda, tão jovens, submissos, obsoletos, em vez de pensarem: “Um tipo com 86 anos que enfrenta Deus, que enfrenta a sociedade… Que sorte etr um homem com esta capacidade de rebeldia!”, perguntam: “Quem é? Quem escreve? Não gosto!” Estou indignada de ver o pouco livre que são os jovens, o quão convencionais são, o quão cansados estão. Estão assustados porque José tocou num livro sagrado. Mas quem disse que o livro é sagrado? Que mentes tão pequenas julgam a obra pública. Não conseguem ver a grandeza nem de uma ponte nem de um ser humano. Têm uns óculos que lhes deve dar para verem o tamanho do seu pénis… pequenino.
Saramago faz-lhe constantes dedicatórias: “À Pilar, que não deixou que eu morresse.” “A Pilar, todos os dias.” “A Pilar, que não havia nascido, e tanto tardou em chegar.” “A Pilar, minha casa.” A de Caim diz: “A Pilar, como se dissesse água.” Que acha que quer dizer?
Parece-me que água é água. Uma coisa clara, e, quem sabe, necessária. Mas que sei eu? Fiquei tão perplexa, e tive um problema para traduzir… “A Pilar, como si diciera agua.” Ou “… como dice agua”.
Se escrevesse, que dedicatória faria para José?
Sou tão discreta, tão dura, tão arisca… Imagina em casa dos meus pais 15 a beijarem-se todas as noites e todas as manhãs? “Eu já te dei um beijinho a ti? E a ti?!”
Já assisti a manifestações de carinho entre si e José. É uma relação ternurenta, há um toque de mão, um beijo na cara…
Sim, mas mais da parte do José do que da minha. Se tivesse que fazer uma dedicatória, seria: “Para José, meu amigo.” Porquê “meu amigo”? Porque me parece ser o maior valor, mais que amante. Os amantes vão e vêm das nossas vidas. Os pais vão e vêm, e por vezes nem vêm. Os irmãos são estupendos, mas cada um tem organizada a sua própria história. Os que ficam sempre são os amigos. A amizade é o que mais defendo, acima do amor.
Não. A idade está no bilhete de identidade, em nenhum outro sítio. Ele tinha todas as idades, tal como eu tenho todas as idades. Num momento determinado podemos ser crianças e noutro momento dois adultos cansados.
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Ainda Caim: “Faltam-nos ainda muitas palavras para que comecemos a tentar dizer quem somos, e nem sempre daremos com as que melhor o expliquem.” Foi uma bênção terem encontrado as palavras que dissessem quem são?
Encontrar as palavras, vamos encontrando todos os dias. A sorte é sermos os dois tão transgressores, tão rebeldes, e termos tanta força vital que não nos cansamos nunca de começar. E se no dia anterior houve um a história disparatada, ou chunga, ou feia, no dia seguinte começa-se de novo. Não há em filhos, nem pátria, nem rei, nem partido que nos obrigue a estar juntos. Alcançámos, em todos estes anos, 20 e tal, um nível de liberdade que nos permite dizer todas estas coisas, enfrentar o que seja e estar juntos porque queremos começar juntos. Isso é que é ser livre, para ficar e para ir. Não há uma única convenção social que nos ate. Não temos uma “puta atadura” pequeno-burguesa. Quem tem uma mente pequena não entende a nossa história, banaliza-a.
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Como é que tem assistido à polémica que envolve Caim?
Estes colunistas de merda, tão jovens, submissos, obsoletos, em vez de pensarem: “Um tipo com 86 anos que enfrenta Deus, que enfrenta a sociedade… Que sorte etr um homem com esta capacidade de rebeldia!”, perguntam: “Quem é? Quem escreve? Não gosto!” Estou indignada de ver o pouco livre que são os jovens, o quão convencionais são, o quão cansados estão. Estão assustados porque José tocou num livro sagrado. Mas quem disse que o livro é sagrado? Que mentes tão pequenas julgam a obra pública. Não conseguem ver a grandeza nem de uma ponte nem de um ser humano. Têm uns óculos que lhes deve dar para verem o tamanho do seu pénis… pequenino.
Saramago faz-lhe constantes dedicatórias: “À Pilar, que não deixou que eu morresse.” “A Pilar, todos os dias.” “A Pilar, que não havia nascido, e tanto tardou em chegar.” “A Pilar, minha casa.” A de Caim diz: “A Pilar, como se dissesse água.” Que acha que quer dizer?
Parece-me que água é água. Uma coisa clara, e, quem sabe, necessária. Mas que sei eu? Fiquei tão perplexa, e tive um problema para traduzir… “A Pilar, como si diciera agua.” Ou “… como dice agua”.
Se escrevesse, que dedicatória faria para José?
Sou tão discreta, tão dura, tão arisca… Imagina em casa dos meus pais 15 a beijarem-se todas as noites e todas as manhãs? “Eu já te dei um beijinho a ti? E a ti?!”
Já assisti a manifestações de carinho entre si e José. É uma relação ternurenta, há um toque de mão, um beijo na cara…
Sim, mas mais da parte do José do que da minha. Se tivesse que fazer uma dedicatória, seria: “Para José, meu amigo.” Porquê “meu amigo”? Porque me parece ser o maior valor, mais que amante. Os amantes vão e vêm das nossas vidas. Os pais vão e vêm, e por vezes nem vêm. Os irmãos são estupendos, mas cada um tem organizada a sua própria história. Os que ficam sempre são os amigos. A amizade é o que mais defendo, acima do amor.
Pública.15.11.09












